Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo
Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país
Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país
Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país
Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo
Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil Brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
"O Chato"
Todos os personagens sobre os quais escrevi , hoje são fantasmas que me habitam, que olham pra mim pensando: ‘Eu sou você amanhã e ontem’.
Como se tivessem num castelo aqui, num castelo psico todos me olhando.
Escrevi sempre sobre o patético humano, o nosso ridículo eterno.
Nos temos a impressão pela igreja católica de que temos o pecado original, mas temos mais, temos o ridículo original. Essa nossa cara de quem vai tropeçar a qualquer momento na frente da namorada.
Escrevi sobre personagens que tem esse patético acentuado. Representantes disso, a bailarina gorda, o vampiro doidão que detestava sangue e era bonzinho, o gago que queria ser locutor de corrida de cavalo, o rei do mau humor, Valfrido paranóico, Montenegro desajeitado, João o ciumento e todos eu identifico, são todas pessoas que eu posso dar o nome, ai eu fiz pra essa pessoa Deta e Clau já existem, esse eu não posso denunciar pra quem fiz porque o tema se chama “O Chato”.
Segundo Millôr Fernandes : “O chato é aquele cara que conta tin-tin por tin-tin depois ainda entra em detalhes”.
É preciso perdoar o chato, o chato não tem defeito grave, ele é bem intencionado, ele só confundi as coisas, ele acredita, ele tem uma ingenuidade perene.
Se fala pro cara: ‘Aparece la em casa’. Ele aparece.
Derruba o Whisky na hora que vai paquerar a garota.
Más é preciso perdoá-lo.
'Ah, todo chato é bonzinho, nunca nos faz nenhum mal
Ah, todo chato é calminho, como se faltasse sal
Ah, todo chato te conta, aonde passou o Natal
E sempre te da um dica, de onde ir no carnaval
Ah, todo chato cutuca, pra você prestar atenção
Chama cabeça de cuca, e arranha um violão
Diz que inventou uma música e toca as seiscentas que fez
E quando você abre a boca e boceja, ele toca tudinho outra vez
Ah, todo chato é gosmento, mas não há como evitar
Eu sou um chato e meu Deus não me agüento
Só me tacando no mar.'
Ah, todo chato é calminho, como se faltasse sal
Ah, todo chato te conta, aonde passou o Natal
E sempre te da um dica, de onde ir no carnaval
Ah, todo chato cutuca, pra você prestar atenção
Chama cabeça de cuca, e arranha um violão
Diz que inventou uma música e toca as seiscentas que fez
E quando você abre a boca e boceja, ele toca tudinho outra vez
Ah, todo chato é gosmento, mas não há como evitar
Eu sou um chato e meu Deus não me agüento
Só me tacando no mar.'
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Já dizia o poeta...
| Caetano Veloso |
Como o poeta já dizia da deselegância discreta de suas meninas,
Mas eu não entendo porque delas darem as mãos e nunca atravessarem a esquina.
Não, ele não entendeu porque o poeta não sou eu.
Eu só musico a verdade e a nostalgia.
Não, não sou narciso, não acho feio o diferente,
Mas não compreendo a tolice da gente de julgar inconsciente.
Bem aventurado leãozinho menino bem certinho
E eu tão indiferente, então porque por ti tal encanto?
É que teu poema consola meu pranto!
Não, ele não entendeu porque o poeta não sou eu.
Eu só musico a verdade e a nostalgia.
Não vivi naquela época de luta, guerra e garra,
Mas eu vivo o vazio, agora gélido e sem graça
É que teu poema embaça, faz graça ao gelado
E faz do frio que eu sinto agora, algo inexplicável.
Não, ele não entendeu porque o poeta não sou eu.
Eu só musico a verdade e a nostalgia.
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